Category

Imprensa

Category

Helena Simões tem pela arte uma paixão antiga e preparou um bolo para a Nutrição com Coração.

Apesar da formação em engenharia, há cerca de uma ano que se dedica ao Cake Art para criar bolos únicos com imagens muito especiais.

O Canal Nutrição com Coração do Jornal de Notícias foi conhecer o trabalho inspirador da Fleur de Lys.

Assista AQUI ao vídeo completo.

Hoje partilho convosco a entrevista que dei à jornalista Patrícia Toste de Sousa, para a revista LUX. Na íntegra, sem filtros, tal como sou. A forma como vivo, agora. O amor. O meu Guru Paramahamsa Vishwananda, a necessidade do campo e de ter a minha gente bem perto. E mais amor. Há muito que me deixei de castelos encantados e de contos de fadas. Sou eu assim, feliz na minha imperfeição. E nem sempre sorrio. Mas no final dos dias, é amor, o que sinto.

 

Como passou as férias de verão?

Em Maio fiz uma viagem a Bali, uma espécie de retiro com mulheres inspiradoras, razão por que senti vontade de ficar em Portugal no verão. É precisamente em Maio que começo a desfrutar de fins-de-semana prolongados em várias zonas do país, sobretudo em Trás-os-Montes, de onde sou natural e onde me sinto tão bem. Tenho lá uma casa no meio do campo onde passo todo o tempo possível, assim como numa quinta que adoro – a Quinta de Fiães. Devolvem-me a tranquilidade e é lá que encontro o equilíbrio e a inspiração. Além disso, o meu irmão tem barcos no Douro e é também no rio que encontro essa paz. Como vê, os meus programas passam muito pelo encontro com a natureza, com os pés descalços na terra, ioga, meditação e – claro –  uma alimentação natural e saudável, o mais possível com alimentos frescos, acabados de colher. Ainda fui à Alemanha passar uma semana perto do meu Guru. Regressei em paz, serena, grata e feliz, cheia de coisas boas que também vou partilhar. Sinto uma necessidade grande de me desfocar do meu dia-a-dia, de me afastar do meu meio habitual para poder observar-me melhor e escutar-me mais serenamente.

O regresso ao trabalho e à rotina é para si difícil?

No contexto que referi, não. Aprendi a ter dias bons, com tempo para tudo e assim fico equilibrada e feliz. Eu sempre fui apaixonada pelo que faço, mas em tempos percebi que não gostava da forma como o fazia. Cheguei a uma altura em que acumulava tarefas e não saboreava cada uma devidamente. Vivia tão absorvida nessas tarefas diárias, tão focada em dar aos outros, que pouco ou nada parava para cuidar de mim. Não me refiro à falta de convívio com as pessoas a quem amo – tal sempre foi tão vital para mim como respirar – e muito menos ao cuidar do corpo, desde o exercício físico às tarefas que nós, mulheres, temos quase como necessidade para integração social. Refiro-me à necessidade de nos ouvirmos, de nos escutarmos, algo que só reencontrei na meditação.

Acho que é comum, vivemos na era do “não há tempo”, na era da necessidade de aproveitar todos os segundos para executar tarefas, na era do “tenho que ser perfeito ou mostrar que sou”. Uma tal perspetiva vai pesando e se começamos por achar graça a um telemóvel que nos permite trabalhar em todo o lado e a um instagram que nos permite saber que um grupo mais ou menos extenso de pessoas gosta do que fazemos e mostramos, a determinada altura isso vai-nos subtraindo energia e alegria. Chegamos a um ponto em que nos tornamos reféns da tecnologia que, em vez de nos ajudar, nos limita, roubando tempo e liberdade. “Aproveitamos” o pouco tempo livre, aquele em que estaríamos apenas connosco e que é tão importante para o nosso equilíbrio, para adiantar trabalho ou expormos o que fazemos nas redes ou simplesmente inteirando-nos do que os outros fazem.

Felizmente encontrei o equilíbrio, redefini prioridades e passei a ter mais tempo e uma parte do dia dedicada só a mim. Posso escolher ver o mar, meditar, ler, preparar “comida feliz” com tempo – cozinhar também é uma terapia – caminhar, tomar um banho mais demorado, preparar uma máscara ou um exfoliante com produtos naturais, cuidar do corpo, ouvir música de que goste muito ou simplesmente ficar em silêncio. As coisas simples encantam-me!

É nutricionista de profissão, mas é também uma empreendedora. Pode indicar-nos em que projetos está, neste momento, envolvida?

Tenho a minha clinica, Saudarte, no Porto e dou consultas em Lisboa, na clinica do Dr. Ibérico Nogueira. O Blog Nutrição com Coração e o novo livro permitem-me criar, o que para mim é vital. Para tal tenho também o estúdio em Vila Real e uma equipa maravilhosa a trabalhar nele. Crio conteúdos semanais para o Canal Nutrição com Coração do Jornal de Notícias, contando também com uma equipa excepcional. As redes sociais Nutrição com Coração permitem-me estar em contacto diário com o público e saber de que forma posso ajudar as pessoas, o que faço com as publicações de receitas e outros conteúdos. Sou consultora de algumas empresas, tenho a minha marca de produtos alimentares saudáveis em parceria com a Cem Porcento e ainda o projeto de restauração My’kai Poké Bowls. E há mais…

Atualmente tem algum programa ou rubrica num canal de televisão?

Nesse processo de redefinição de prioridades afastei-me um pouco da televisão no último ano, mas conto regressar em breve. Já tenho saudades!

Como, e quando, surgiu o canal Nutrição com Coração no Jornal de Notícias online?

Surgiu há quase 3 anos, a convite do diretor, Domingos de Andrade. É mais uma das minhas paixões, tem variedade de conteúdos, permite-me conhecer espaços, entrevistar pessoas, cozinhar… E partilhar muito!

Entretanto, também já publicou oito livros. Escrever é uma paixão?

Publiquei 6 e estou a caminho do sétimo, aquele que será, seguramente, o livro da minha vida. É muito diferente de todos os outros, tem muito de mim, com e sem bata branca.

Que desafio profissional gostava de abraçar e que ainda não teve oportunidade?

Um deles era escrever o livro que estou agora a terminar. Depois de 6 livros cujo objetivo foi essencialmente a alimentação, este novo livro foca-se, antes de mais, em pessoas. Todos somos parecidos num sem número de fatores, desde as necessidades mais básicas aos processos que nos mantêm vivos. E no meio de tal semelhança, é ainda muito o que nos diferencia e nos torna únicos. Cada pessoa tem um universo próprio, singular, ímpar. Constato-o enquanto nutricionista, observando os meus pacientes e sinto-o na pele enquanto mulher. Se em todos os outros livros fez sentido partilhar a minha experiência como nutricionista, neste, saio na minha zona de conforto e partilho um pouco, também, a experiência da pessoa, sem bata.

Pensei muito antes de escrever mais um livro e tornou-se muito claro que só fazia sentido fazê-lo se com ele pudesse ensinar as pessoas a gostarem mais delas próprias antes de iniciarem qualquer plano alimentar e, logo depois, a gostarem da sua relação com a comida e da comida em si. Importa identificar padrões comportamentais e “fragilidades”. Gostava que as pessoas percebessem que a alimentação não é um fim, mas sim um princípio constante e por isso só deve desencadear emoções boas. Nesta realidade em que reinam as regras e a disciplina, a necessidade de ser perfeito ou de se mostrar que é, fica pouco espaço para tal, para nos amarmos puramente e também para voltar a gostar da comida, a comidinha boa, a “comida saudável e feliz” de que tanto falo. A consciência alimentar é urgente, sim, mas não este fundamentalismo que torna as pessoas escravas. Esquecemo-nos de nós e é nesse caminho que pretendo ajudar.
O outro passa por um projeto televisivo mais arrojado. Tenho muitas ideias.

Em 2018 foi premiada pelo Ministério da Saúde por promover a saúde Pública. Como recebeu esta distinção?

O Ministério da Saúde premiou-me como uma das 12 personalidades portuguesas que promove a Saúde pública. Foi e é muito gratificante saber que o meu trabalho de uma vida é reconhecido publicamente. Esta homenagem só me dá mais motivação para continuar a querer fazer melhor todos os dias.

O blog Nutrição com o Coração, foi um trampolim para alcançar visibilidade?

Na verdade, o Blog surgiu quando essa visibilidade já estava alicerçada.

Tem uma amiga de infância, a Kiki (não sei como se chama), que a ajuda a desenvolver as suas receitas. Qual a participação da Kiki nos seus projetos e na sua vida?

A Kiki é minha irmã; não temos o mesmo sangue mas partilhamos o mesmo amor. Na verdade é neta da minha ama, a Avó Luz, minha boa e querida amiga desde que nasci e trabalha comigo na Cozinha com Coração já há uns anos. É uma ótima ajuda, uma inspiração, um pilar de apoio; juntas, chegamos às melhores receitas. Aliás, olhando para trás, sempre foi assim, as nossas melhores brincadeiras de infância aconteciam à volta da nossa cozinha e dos nossos cozinhados.

A sua silhueta é fruto da “dieta” que defende?

Eu só sou feliz onde há comidinha boa, a minha “comida feliz”. E assumo-o, antes de mais, para mim mesma. Essa é a preocupação, que alio à consciência alimentar. A saúde vem desta equação e a silhueta acompanha-a. Tenho equilíbrio alimentar, prazer de comer e acho que é assim que deve ser.

Posso fazer uma viagem linda, estar num sítio paradisíaco mas não consigo vivê-los em plenitude se não saborear comida que me satisfaça. Naturalmente não é à quantidade que me refiro, mas sim à qualidade: comida saudável, linda e saborosa. Só sou plenamente feliz com ela. Assumo-o. Aceito-o. Respeito-me.

Não sigo um plano alimentar escrupulosamente, abro algumas exceções. Nem sempre as partilho porque acho que devo passar bons exemplos e dar às pessoas as ferramentas que lhes possam facilitar a vida no sentido de terem uma alimentação saudável e equilibrada. Em todo o caso, não sou fundamentalista, não há “alimentos proibidos” nos meus planos alimentares. O velho ditado “nem sempre nem nunca” adapta-se na perfeição à alimentação. Há outro ainda: devemos adaptar a alimentação à nossa vida e não a vida à nossa alimentação. Eu sigo esta filosofia.

O exercício também faz parte do seu dia-adia?

Sim, faz. Aprendi a gostar de treinar e não prescindo desses momentos que também fazem parte do meu equilíbrio.

É difícil comer bem (de forma saudável)?

E está ao alcance de todos?

No que respeita à nutrição, estamos agora a atravessar um ponto de viragem. A evidência científica tem-se acumulado, a literacia em saúde tem feito o seu caminho de forma discreta, os meios de comunicação são ferramentas que se têm tornado aliados fundamentais (embora também disponibilizem informação pouco credível ou mesmo errada) e o consumidor começa a mudar as suas exigências, acrescentando um requisito: ser saudável. Neste caminho, assistimos muitas vezes a casos do dito fundamentalismo, em que a alimentação passa a ser um exercício rigoroso de regras constantes, com contagem de calorias e leitura exaustiva de rótulos, sendo mais uma carga e preocupação numa vida por si só já cheia de tarefas e pesos e não deixando espaço para o livre arbítrio e muito menos para o prazer de comer. Neste caso as pessoas tornam-se escravas, não encaram a alimentação com a leveza e prazer que ela também deve proporcionar. Em contraste com esta realidade, estão os casos – ainda muito frequentes – em que reina a alimentação monótona de quem se rende essencialmente à comida pronta a comer, não se dedica sobretudo a comer alimentos naturais e a procurar o equilíbrio alimentar por falta de tempo ou por cedência às ofertas apelativas da industria ou até por confiar nas mesmas, desconhecendo não fazer uma boa opção. Aqui, a dita monotonia afecta a qualidade alimentar, tantas vezes desencadeando carências nutricionais. Em qualquer um dos casos, como disse antes, é urgente voltar a gostar de comida e de comer, fazendo-o de forma consciente e leve. Comer não deve ser mais uma preocupação excessiva e constante; deve, isso sim, fazer parte do nosso dia-a-dia da forma mais natural e agradável possível. Se não usássemos mal o tempo, teríamos disponibilidade para cuidar da base da nossa saúde e do nosso bem-estar, que é incontestavelmente a alimentação. Tantas e tantas vezes não fazemos dela uma prioridade por considerarmos que não queremos “perder tempo” quando na verdade ganharíamos tempo – tempo de vida!
O equilíbrio entre as realidades descritas é necessário. Perde-se muito neste mundo de informação excessiva em que inevitavelmente existe também tanta contra-informação. É necessário voltar a sentir a comida como antes. Estamos a perder até uma parte cultural que faz, que sempre fez, parte da nossa cultura e tanto a enriquecia.

Com tantos projetos, sobra-lhe muito tempo para a vida pessoal?

Como lhe disse, agora, sim. Agora que vivo mais leve e tenho tempo para me mimar, tudo flui.

Vive sozinha, com os seus dois gatos? São uma grande companhia? Quem são eles?

O Mel e o Cacau são companheiros incríveis. Precisavam de uma casa e há 4 anos adoptei-os (e eles a mim). São uma fonte de ternura e alegram os meus dias. Espero também alegrar os deles.

“Gosto de mim (todos os dias)” do seu livro-agendal e, segundo o seu blog, um objetivo que se impõe. É algo fundamental?

Pelo que já disse, penso que fica claro que sim.

Ser amor é tão simplesmente: Ser. Não ”ter” –  Ser. Essa jornada começa dentro de nós, cultivando um amor verdadeiro por nós próprios, acarinhando-nos. Só então teremos o suficiente para dar aos outros. E nesse vaivém de amor vamos percebendo que somos muito mais felizes.

Que conselhos dá a quem não consegue ter esse sentimento?

Somos fontes inesgotáveis de amor. Este é um princípio universal, todos começamos por ser tão somente amor e vamo-nos distanciando desse caminho, que começa, talvez, pela perda – mais gradual ou mais rápida – do amor-próprio. Vamos deixando de ser quem somos e vestimos outras peles, damos cabo de nós nesse disfarce que pesa tanto. Neste processo entram as nossas experiências, que nos criam medos, entram as crenças e valores que nos foram incutidos, tudo o que fomos absorvendo de fora para dentro. E tanto tempo nos mantivemos presos aos fluxos de fora para dentro que nos esquecemos que nos fazem mais falta precisamente os de dentro para fora, de nós para nós mesmos. Mais importante do que todas as formas que percecionamos é o que sentimos, o que não tem forma, o nosso mundo interior. Interessa mudar o foco da nossa atenção, voltarmo-nos para dentro, para nos amarmos novamente na plenitude que merecemos. Saberemos quem somos, o que nos move, para onde queremos ir e onde queremos chegar? Se não, ainda, foquemo-nos na procura destas respostas. O amor é a chave de tudo o que é bom.

É importante que cada um faça a sua autoanálise e também que pare de se criticar. Devemos sobrepor a vozinha interior que nos diz o quanto somos bons à que constantemente nos auto sabota e maltrata. Quantas vezes somos o nosso pior inimigo? É urgente reencontrar o amor dentro de si. Ame-se! Mime-se! Cuide de si. Deve sentir que dá cada passo na vida rumo ao caminho certo, que está exatamente onde deve estar. Já experimentou essa sensação? Se ainda não, está muito a tempo. Essa é a boa notícia: estamos sempre a tempo de tomar as rédeas da nossa vida.

Nasceu em Vila Real, mas vive no Porto. Como define a cidade que escolheu para viver? (Está bastante diferente do que era há uns anos…)

Na verdade fui nascer ao Porto, mas passei uma parte da minha infância em Vila Real e outra em Chaves.

O Porto é uma cidade muito rica em memórias históricas de todas as espécies. É uma cidade de gente sã. É uma cidade de (muito) trabalho e muito bairrista.

Resumirei tudo o que poderia descrever em muitas páginas, dizendo somente que o meu Porto é uma cidade que se sente respirar em cada monumento, em cada casa mais antiga, em cada pequena ruela.

Via-se a viver noutro sítio?

Sim, via. No meio do campo, com o som de um riacho, uma horta, um estúdio cheio de tachos e uma secretária para escrever.

Afirmou no seu blog, que é “uma mulher apaixonada pelas coisas simples da vida”. O que a faz feliz?

Agora, quase tudo. Cada despertar. Cada refeição. Cada inspiração. Cada expiração. Cada vez que abraço os meus sobrinhos. Em cada beijo do meu pai. Em cada abraço da minha mãe. Cada contacto com os meus pacientes. Sentir os pés na terra. Ouvir o som tranquilo da água. Despertar com o som dos pássaros. Ter em mim o olhar terrento do Mel e do Cacau. Receber o sorriso de alguém na rua e sorrir-lhe também. Cada viagem na Cozinha com Coração. Cada vez que saboreio a minha “comida feliz”. Cada mantra de boas-vindas ao sol ou à lua. Cada vez que abro o coração. Confiar, orar, dar as mãos. Pensar no meu Guru. Tudo o que penso, digo e faço com amor. Simples, não é?

 

Pode falar mais sobre o seu Guru?

É o meu Mestre Espiritual, chama-se Paramahamsa Vishwananda e é hindu. É uma fonte do mais puro amor e ensina-nos nesse caminho tão curto mas ainda assim tão complexo, que é a viagem entre a mente e o coração.
Na verdade já o deve conhecer, é também o Guru do Rui Patrício. Através dele aprendi técnicas de Atma Kriya Yoga, que tornam os meus dias tão melhores. Desde que o conheci, a minha vida tem muito mais amor!

Há algum tempo dei uma entrevista a uma jornalista da Revista Sábado, cujo trabalho já conhecia e admirava. Desconhecia que o título seria “Os Bloggers Portugueses Mais Influentes”, o que me deixou muito orgulhosa. Naturalmente foi publicada uma pequena parte dessa entrevista. Como descreve o meu trabalho de forma fiel, resolvi partilhar também o que não foi publicado.

 

  1. Como é que surgiu a ideia de criar um blogue? Surgiu por alguma razão em especial?

Na verdade faltava um espaço onde pudesse escrever mais. Receitas, artigos, tudo o que completaria no dia a dia a página de Facebook e Instagram da Nutrição com Coração. Faltava uma forma de chegar aos meus pacientes, mas não só, a todos aqueles que se defrontam com a angústia de quererem melhorar os seus hábitos alimentares e não conseguem. E este é um canal privilegiado para o fazer.

 

  1. Porquê o nome Ana Bravo Nutrição? (Bravo é o seu apelido verdadeiro, certo?)

Sim, Bravo é um dos meus apelidos. Bravo da Conceição. Chama-se Ana Bravo – Nutrição com Coração” e começou porque tinha que dar nome a uma página de Facebook que criei, por brincadeira, numa das muitas viagens entre Lisboa e Porto, onde dou consultas. Tinha muitas mensagens na minha página pessoal de pessoas que queriam saber o que comia eu afinal ao pequeno-almoço, lanche… Em vez de responder uma a uma, decidi criar a página para o fazer, para quem o quisesse seguir. Cheguei ao Porto, deviam ser umas 22h, activei a página e só olhei para ela às 6h do dia seguinte, quando me levantei para treinar. Para minha surpresa já tinha mais de 5000 seguidores. Claro está que o nome se manteve e é agora uma marca forte. “Nutrição com Coração” faz todo o sentido, porque amo o que faço e procuro transmitir conhecimentos na minha área, com esse amor.

 

  1. Segue escrupulosamente a dieta que divulga no blogue?

Escrupulosamente não. Eu devo passar bons exemplos e dar as ferramentas às pessoas que lhes possam facilitar a vida no sentido de terem uma alimentação saudável e equilibrada. Não fará sentido publicar por exemplo uns quadrados de chocolate ou ensinar a fazê-lo porque eu tive vontade de comer num dia de maior cansaço ou carência. Já pensei nisso, em publicar as minhas excepções, mas acho que em nada vai ajudar as pessoas, pelo que o fiz muito raramente. Em todo o caso, não sou fundamentalista, não há “alimentos proibidos” nos meus planos alimentares. O velho ditado “nem sempre nem nunca” adapta-se na perfeição à alimentação. Há outro ainda: devemos adaptar a alimentação à nossa vida e não a vida à alimentação. Eu sigo esta filosofia.

 

  1. O que diferencia esta dieta das demais e quais as vantagens dela?

Creio que é justamente a capacidade de perceber o que as pessoas são e nós somos o que comemos, mostrando depois caminhos que as ajudem sem que a forma como nos alimentamos passe de repente a ser uma via sacra para o calvário. Ou seja: as pessoas não deixam de ser o que são, enveredando por dietas loucas. Apenas aprendem a comer de forma diferente.

 

  1. Com quem testa as receitas? A sua família e amigos também seguem a dieta?

Tenho a imensa sorte de poder ter comigo na empresa Nutrição com Coração uma das minhas grandes amigas de sempre. Conheço-a desde o dia em que nasci. A Kiki é licenciada em biologia e tem muito jeito para a cozinha, por isso é para lá que vamos juntas e testamos as nossas receitas. Sim, uma parte da família e amigos seguem as minhas indicações.

 

  1. Que cuidados tem com a sua alimentação para manter a silhueta perfeita? Sempre seguiu esta dieta?

Procuro ingerir alimentos o mais possível no seu estado natural, evito mesmo os alimentos processados. Evito o açúcar e o sal de adição, bem como as gorduras de má qualidade. Na minha casa nunca preparei um frito. Sou transmontana e por isso consigo uma parte dos melhores ingredientes lá e a outra parte adquiro na zona dos biológicos, no Bio & Narural.

 

  1. Alguma vez teve excesso de peso ou sempre foi elegante?

Nunca tive excesso de peso, mas houve uma altura em que me deparei com a necessidade de resistir às tentações de uma terra tão rica em tradição gastronómica como são Vila Real ou Chaves, onde estudei.

 

  1. As receitas que vemos fotografadas são preparadas na cozinha de sua casa?

Muitas sim, outras no estúdio Nutrição com Coração, que fica em Vila Real, onde mora a Kiki e onde me desloco sempre que consigo.

 

  1. Que cuidados tem na apresentação dos pratos? É um fotógrafo profissional a tirá-las?

Eu adoro decorar cenários, preparar as fotografias. As fotografias são tiradas por nós, por mim e pela Kiki. São momentos descontraídos, de muitas gargalhadas. Tenho a imensa sorte de trabalhar neste ambiente de boa disposição. Todos adoramos o que fazemos. Somos já 5 pessoas a trabalhar nesta paixão que é a Nutrição com Coração.

 

  1. Qual a sua esfera de influência enquanto blogger de nutrição?

Creio que assenta essencialmente num trabalho de credibilidade e seriedade que foi sendo conquistado ao longo de anos. Mas que não se fica apenas pela profissão. As pessoas procuram-me porque acreditam na validade do que digo e faço, seja nas pequenas coisas do dia a dia, seja nas mais sérias. Porque o meu rigor e forma de estar na vida pautam-se sempre por essa linha de prumo que tracei.

 

  1. As receitas são inventadas por si?

São, por mim e pela Kiki.

 

  1. Qual a receita com mais sucesso e porquê?

As mousses e os soufflés têm muito sucesso. Penso que as pessoas vêem neles formas simples e rápidas de ter um miminho doce sem a culpa das calorias e dos maus ingredientes.

 

  1. Pode explicar a fórmula da sua dieta ser saborosa e saudável?

Só usamos ingredientes que fazem bem, mas não basta misturá-los, temos que conseguir fazê-lo nas quantidades certas, de forma a ter um produto final com um sabor, consistência e textura que agradem. Às vezes temos que testar a mesma receita umas três vezes até conseguir o que queríamos.

 

  1. Através do blogue já conseguiu lançar tendências de nutrição? Por exemplo, os seus seguidores passarem a adoptar determinados ingredientes que até então desconheciam?

Sim, sem duvida! Eu ensino a usar novos ingredientes com interesse nutricional, como o teff ou o amaranto, por exemplo, dando-lhes um cariz muito prático, muito usável para o dia a dia.

 

  1. Que ingredientes costuma usar?

Todos os bons, naturais, desde os mais comuns aos que poucos conhecem.

 

  1. Quais são as suas influências gastronómicas?

As raízes. Os cheiros da casa das avós. A forma como na família se ama a cozinha.

 

  1. Costuma cozinhar por gosto, diariamente, ou só o faz para o blogue?

Costumo, sim. Adoro comer – e quem não gosta? – mas cozinho, para mim, sempre muito rápido. Adoro misturar ingredientes felizes, como lhes chamo, aqueles que fazem bem.

 

  1. Desde quando começou a gostar de cozinhar? Teve formação de culinária ou é uma autodidacta?

Fui vendo a minha mãe lá em casa e depois fui testando. A Kiki é uma ajuda incrível, uma inspiração, juntas chegamos às melhores receitas. Aliás, olhando para trás, sempre foi assim, as nossas melhores brincadeiras de infância aconteciam à volta da nossa cozinha e dos nossos cozinhados. Guardo as melhores memórias no meio dos tachos.

 

  1. Há figuras públicas a seguirem a sua dieta?

Há sim, das que tenho autorização para falar, a Rita Pereira e a Carolina Deslandes, por exemplo.

 

  1. Fale-me um pouco da secção os Bravos. São seguidores do blogue ou pacientes seus? Quantos tiveram resultados de sucesso e qual deles foi o caso mais impressionante de perda de peso? (aqui agradeço que relate o caso, o peso antes e depois e o que mudou na vida da pessoa em questão)

Nessa secção as pessoas usam a sua experiência, que partilham, para incentivar outras pessoas a mudar a sua alimentação com ou sem outro objectivo associado. A perda de peso é, normalmente, o que as pessoas mais procuram. A maior parte dos “Bravos” que quiseram dar a cara são meus Pacientes, mas também há seguidores que nunca acompanhei na consulta. Recebo diariamente mensagens privadas lindas, de pessoas que não querem partilhar a sua experiência publicamente, mas fazem-no comigo.

Ha alguns Pacientes que me marcaram, num dos casos porque sei que lhe mudei a vida e a tornei uma pessoa muito mais feliz e no outro porque a pessoa me ensinou muito. No primeiro caso, ela – uma mulher – não conseguia lidar com o seu corpo, tinha uma visão distorcida da imagem que o espelho lhe devolvia. Tratava-se de um caso de ortorexia, em que as saídas e os convívios sociais tinham sido praticamente eliminados, com o receio de não conseguir comer bem fora de casa. Resultado: tinha uma vida muito solitária, o que preocupava muito os pais, cuja relação também já estava a degradar-se. Com o tempo, juntas, fomos descobrindo passo a passo a melhor forma de a fazer ver a alimentação saudável de forma natural, sem obsessões. Entretanto começou a namorar e teve um filho lindo. É uma pessoa diferente, feliz. Quanto ao outro caso, eu tinha terminado o estágio e estava a trabalhar num local público, onde havia uma lista de espera para a consulta de nutrição. Foi então que tive um Paciente que voltava à consulta de mês a mês sem resultados e parecia não estar muito interessado com a questao. Como havia uma lista de espera extensa, decidi que na consulta seguinte iria ganhar coragem e dizer-lhe que tínhamos de parar e que quando estivesse pronto para o começar a cumprir o plano alimentar, regressava. Nessa consulta, olhei para ele e estava diferente, visivelmente mais magro. Perguntei-lhe o que tinha acontecido e explicou-me que não estava numa fase emocional que permitisse começar o plano alimentar com rigor. Acabou por perder 30 quilos e continua a ir à minha consulta há 13 anos, agora de meio em meio ano. Eu aprendi que desistir de um Paciente está fora de hipótese. O meio envolvente, todo o nosso entorno familiar, de trabalho, etc, condiciona as nossas decisões e também a forma como nos alimentamos.

 

  1. Até agora, qual foi o post que mais gostou de fazer? E porquê? O que é que nunca pode faltar nas publicações?

Adorei falar sobre “ maturidade alimentar”, um conceito simbólico que criei para descrever o que tantas pessoas sentem em momentos de carência emocional, cansaço, tristeza. A comida é uma compensação e é importante que as pessoas percebam que esse é um ponto comum, que não se sintam fracas porque estavam a cumprir um plano alimentar e sem pensar comeram um pacote de bombons ou bolachas, por exemplo… importante mesmo é ensinar a gerir esses momentos e o que vem a seguir, sem olhar para trás. Como em todas as áreas da vida, não há idade para adquirir a tal “maturidade alimentar”, mas quanto mais cedo, melhor, naturalmente.

 

  1. Já existiram momentos em que não lhe apetecia mesmo nada escrever para o blogue, mas tinha que o fazer? Como surgem as ideias e que disciplina cumpre para actualizar o blogue?

As ideias surgem-me a toda a hora. Posso acordar a meio da noite e escrever, ter que sair do duche mais do que uma vez para anotar algo de que me lembrei e me parecesse interessante para o blog ou ver uma notícia que faz sentido desenvolver… não consigo parar e mesmo nas férias tenho mil ideias que vou anotando para depois pôr em prática. Bom, a verdade é que raramente consigo esperar e por isso vou fazendo, escrevendo e cozinhando, de tal forma que temos sempre uma média de 10 publicações pendentes.

 

  1. O que é que os seus seguidores costumam dizer-lhe acerca das receitas? Qual foi a mensagem que mais a impressionou? E qual foi a pior mensagem ou comentário que lhe fizeram? Como lida com as críticas?

Tenho a admiração e sobretudo o respeito dos meus seguidores, felizmente. Recebo mensagens privadas de muito carinho, muitas vezes com relatos na primeira pessoa de casos de sucesso. Ou porque passaram a ter consciência alimentar, ou porque aliado a isto também perderam peso, ou porque melhoraram numa determinada patologia… é gratificante, faz-me chorar de alegria.

Os comentários negativos aconteceram quando criei a página de Facebook. Fui pioneira, a primeira nutricionista a fazê-lo em Portugal e por isso fui muito criticada.

 

  1. Qual é a receita para criar um blogue de culinária de sucesso?

O meu blogue não é só de culinária saudável, é de Nutrição. Tem muitos artigos e dicas. Penso que o segredo é trabalhar, trabalhar, trabalhar e por isso faz sentido gostar muito do que se faz. Eu adoro a Nutrição e a Comunicação e sinto-me abençoada por poder juntar ambas!

 

  1. Como faz a gestão de conteúdos? Teve formação especializada na área ou aprendeu a gerir o blogue sozinha? Tem referências de bloggers? Se sim, quais?

Como disse, os conteúdos vão surgindo tanto para falar de temas da actualidade no que respeita à Nutrição, como para responder a questões de seguidores. Também nas consultas percebo algumas dúvidas ou dificuldades das pessoa e procuro ajudar com publicações específicas. Não tenho referências… foi uma aprendizagem de autodidata, como dizem os ingleses, aprender fazendo, vendo também o que de melhor e mais científico se faz lá fora.

 

  1. É agenciada ou tem algum assessor que a ajuda a rentabilizar o blogue? Se sim, pode explicar a importância desta parceria?

Sim, o blogue tem a acessoria da Blog Agency, que existe sobretudo para me ajudar na forma como lido com as inúmeras parcerias que querem fazer.

 

  1. Como é que o seu blogue se distingue dos demais na mesma categoria?

Pela simplicidade. Pelo rigor. Pela busca constante de novidades. Mas sobretudo por eu saber muito bem quem são as pessoas que me procuram, o que me ajuda a escrever para elas.

 

  1. É possível viver só do blogue? Estamos a viver um boom na blogosfera? Está na moda ser blogger?

Não sei, o meu blog tem um ano e meio e quando o criei a marca Nutrição com Coração já era forte. Como disse, o objetivo nunca foi viver da blogosfera, foi aproveitar a blogosfera como meio de chegar às pessoas que me procuram.

 

  1. Quantas horas diárias dedica ao blogue?

É difícil quantificar. Tenho uma clínica a que dedico a maior parte do meu tempo e por isso o blog fica para os intervalos entre consultas e para a primeira hora após acordar.

  1. Em 2018 tenciona fazer algum upgrade no blogue ou projectos paralelos decorrentes da visibilidade dele?

Desde que o blog foi criado já alterámos a sua organização algumas vezes, de forma a facilitar a sua consulta pelas pessoas. Já pensei várias vezes em passar a ter fotografias profissionais, mas acabo por desistir porque percebo que as pessoas gostam da minha forma de comunicar. Tal como no meu último livro “Sem Culpa, Com Sabor”, em que todas as fotos de pratos foram tiradas por mim e/ou pela Kiki, vamos continuar a fazê-lo tanto nas redes sociais como no blog. O objectivo é que as pessoas percebam que vão conseguir reproduzir o que veem, não defraudar as suas expectativas. Sem Photoshop e sem demasiados artifícios. Vamos melhorando o nosso estúdio e o material que usamos para fotografar, mas dificilmente deixarei de ser eu a fotografar desta forma mais Amadora e “caseira”.

 

  1. Dedica-se em exclusivo ao blogue ou concilia com consultas de nutrição?

Tenho uma clínica no Porto, trabalho Com o Dr ibérico Nogueira em Lisboa, também dou consultas no El Corte Inglés, nos SAMS e tenho 2 empresas. Tenho sociedade numa cadeia de restauração My’Kai Poké Bowls e muito em breve vou lançar a minha própria linha de produtos alimentares. Tenho ainda uma App e um Canal Nutrição com Coração no Jornal de Notícias online.

 

  1. Que perspectivas de carreira lhe trouxe o blogue? Por exemplo a nível de livros ou outros projectos paralelos.

Os meus livros já existiam. O blogue, se me ajuda a chegar às pessoas, também ajuda as pessoas a chegarem até mim. O que me dá um manancial de projetos, livros, procura de receitas e de soluções adequadas a cada um, conhecer melhor os anseios e necessidades de pessoas.

 

  1. De que forma é que o seu blogue se torna lucrativo? Há anunciantes interessados em fazer publicidade nele ou outras fontes de receita.

Sim, há marcas interessadas, mas confesso que faço uma triagem apertada e só aceito mesmo o que me faz sentido. Como já tinha uma estrutura forte, não dependo do blogue e por isso posso seleccionar apenas as marcas com as quais me identifico puramente, que são muito poucas.

 

  1. Quanto custa inserir publicidade no seu blogue?

Depende.

 

  1. É reconhecida na rua? Já deu autógrafos? O blogger equipara-se a uma celebridade?

Sim, sou e sim, às vezes dou autógrafos. Mas, sendo gratificante quando acontece, essa não é de todo a parte relevante do que faço.

 

  1. Que cuidados teve no grafismo do blogue e nas fotografias? Tem colaboração de profissionais? Se sim, quem são e desde quando recorre a eles?

Não, não tenho ajuda. Eu adoro essa parte, meto o bedelho em tudo e só descanso quando está exactamente como tinha em mente. Nos livros, no blog, na minha clínica, em todos os meus projectos.

 

  1. Até quando perspectiva a existência do blogue?

Enquanto for esse instrumento de aproximação e de conhecimento dos leitores e dos pacientes.

 

Pode ler também em: http://www.sabado.pt/vida/detalhe/como-os-novos-lideres-de-opiniao-conjugam-o-verbo-blogar?ref=HP_DestaquesPrincipais